Mitomania: Por Que Algumas Pessoas Não Conseguem Parar de Mentir?


      
                   Ele disse que iria à academia. Mas não foi. Não havia motivos para mentir. Ninguém lhe cobrou nada! E mesmo assim ele inventou. Quem convive com uma pessoa que mente compulsivamente conhece bem essa cena. 

A mentira está sempre presente embora nem sempre faça sentido. Na maioria das vezes, é descoberta ou percebida pelas pessoas.
Então, a pergunta que fica é: por quê?

A resposta de senso comum é “porque é mau-caráter”. Mas, quando prestamos mais atenção, a história costuma ser outra. A mentira compulsiva não se caracteriza como uma artimanha para prejudicar alguém. Muitas vezes é uma reação: automática, rápida, que a pessoa não entende exatamente por que mente.

Neste artigo, vou mostrar o que acontece por trás dessa reação: como ela se forma, por que se repete e por que “parar de mentir” não é questão de força de vontade. Vamos passar pela psicologia e também pelo que a neurociência já sabe sobre o assunto.

Um aviso importante antes de começar: mitomania não é um diagnóstico oficial. Já explico o que isso significa.

Mitomania não é um diagnóstico oficial

Antes de entender os mecanismos por trás da mentira compulsiva, precisamos esclarecer um ponto: mitomania não existe como diagnóstico no DSM-5 (o manual de referência da psiquiatria) nem na CID-11 (a classificação da Organização Mundial da Saúde).

O termo foi cunhado no início do século 20 e, com o tempo, virou um jeito prático de descrever um padrão de comportamento: mentir de forma persistente, fantasiosa e sem uma vantagem clara por trás. Mas ele não é uma categoria diagnóstica fechada, com critérios oficiais, como são a depressão ou o transtorno de ansiedade.

O que não significa que não seja um comportamento real com prejuízos muito significativos: pode se manifestar por desregulação emocional, marcas de experiências vividas na infância ou, em casos mais complexos, transtornos de personalidade — e só uma avaliação clínica de psicólogos ou psiquiatras identifica qual padrão está ativo.

Por isso, embora chamemos de mitomania a compulsão por mentir, o mais importante não é classificar a mentira, mas entender o que esse padrão em mentir está ocasionando na vida dessa pessoa. É essa pergunta que abre a porta para os mecanismos que vamos ver a seguir.

O ciclo da mentira

Para entender por que a mentira compulsiva se repete, será de grande ajuda pensarmos nela não como um evento isolado, mas como um ciclo com cinco etapas.

1. Gatilho e tensão interna. 

Algo acontece — uma pergunta simples, uma situação de exposição, um momento em que a pessoa se sente pequena, incapaz ou na iminência de ser rejeitada — e ativa um desconforto que ela não sabe nomear direito. Não é bem medo, não é bem vergonha, é uma mistura das duas coisas que pede uma saída rápida.

2. Mentira. 

A saída chega em forma de mentira. Uma versão editada da realidade, que cobre exatamente o ponto que doía.

3. Alívio. 

E aqui está o núcleo do mecanismo: a tensão cai. Na hora, a tensão diminui e a pessoa experimenta um alívio imediato.

4. Reforço. 

Esse alívio ensina algo ao cérebro: “mentir funciona”. E é esse aprendizado, repetido inúmeras vezes, que transforma um comportamento pontual em um padrão difícil de interromper.

Detalhe importante:
a mentira, na perspectiva do mentiroso, não precisa ter evidências reais. Aqui o que se busca é o alívio imediato de um impulso interno, que acontece no momento exato em que a pessoa conta a mentira, mesmo que não pareça verdade, gere brigas, decepção ou consequências desagradáveis. 

É o alívio imediato — e não o resultado final — que mantém o ciclo girando.

O que a neurociência já observou

Para entendermos melhor esse fenômeno, vou recorrer à psicologia, que explica o porquê da mentira compulsiva, e à neurociência, que nos ajuda a entender o que acontece, fisicamente, quando a mentira se torna compulsiva.

Em um estudo publicado em 2016 na revista Nature Neuroscience, pesquisadores da University College London e da Duke University, observaram que a resposta da amígdala à desonestidade diminuía à medida que os participantes repetiam esse comportamento.
 É essa reação que a maioria das pessoas sente como um aperto, um mal-estar, aquele “gosto ruim” de estar mentindo.

Os pesquisadores escancearam o cérebro de voluntários enquanto eles participavam de tarefas em que podiam mentir para obter vantagem pessoal. O resultado: a amígdala era mais ativa na primeira mentira, e essa resposta ia diminuindo a cada nova mentira, enquanto o tamanho das mentiras ia aumentando.

Em outras palavras: quanto menor o desconforto, mais fácil mentir de novo — e mentiras maiores passam a exigir cada vez menos esforço emocional para serem contadas. Os próprios pesquisadores chamaram esse efeito de “ladeira escorregadia” (slippery slope): pequenas mentiras que vão, aos poucos, abrindo caminho para mentiras cada vez maiores.

Esse cruzamento de achados ajuda a explicar algo que costuma intrigar quem convive com uma pessoa assim: como alguém consegue mentir com tanta naturalidade, sem hesitar, sem parecer incomodado? Não é frieza. É, muitas vezes, um sistema de alarme que já não dispara com a mesma intensidade de antes.

Onde entram os esquemas?


Esse ciclo compulsivo — gatilho, tensão, mentira, alívio, reforço — explica como a mentira se sustenta ao longo do tempo. Mas não explica sozinho os mecanismos emocionais por detrás da compulsão.

Para isso, vamos recorrer à Terapia do Esquema, abordagem desenvolvida por Jeffrey Young, que adoto como recorrência em meu trabalho clínico.

Segundo essa perspectiva, experiências vividas na infância — rejeição, crítica excessiva, abandono, ambientes em que a criança não se sentiu vista ou segura — podem dar origem ao que chamamos de Esquemas Iniciais Desadaptativos: formas distorcidas e automáticas de entender a si mesmo, os outros e o mundo.

Esses esquemas não desaparecem na vida adulta. Eles ficam ativos por baixo da superfície e são reativados por situações do dia a dia que, aos olhos de quem está de fora, podem parecer banais ou sem importância — mas para o mentiroso compulsivo tocam em dores antigas e profundamente significativas para ele.

A mentira, nesse contexto, não surge como uma escolha deliberada e consciente para manipular. Mas uma tentativa — falha e automática — de aliviar uma dor que começou muito antes da mentira em si.

Entender toda essa engrenagem não justifica o comportamento de mentir, tampouco isenta o mentiroso de sua responsabilidade pelas consequências da mentira, mas nos mostra que parar de mentir não tem a ver com falta de caráter ou força de vontade, mas por reconhecer a dor que está por trás desse impulso e fortalecer o que, na Terapia do Esquema, chamamos de Adulto Saudável.

O adulto saudável é a parte de nós capaz de olhar para a realidade como ela é, tolerar o desconforto sem precisar fugir dele, e construir relações baseadas em verdade, não em fantasia.

Fechamento


Voltando à pergunta que abriu este artigo: por que alguém mente sem necessidade aparente?

Agora você já tem a resposta em camadas. Existe um ciclo que se repete — gatilho, tensão, mentira, alívio, reforço — e que vai se automatizando a cada repetição.

 Existe um cérebro que, segundo a neurociência, vai se dessensibilizando ao desconforto de mentir, tornando cada mentira seguinte um pouco mais fácil que a anterior. E existem, muitas vezes, dores antigas, ligadas a esquemas formados na infância, que a mentira tenta — sem sucesso — aliviar.

Nenhuma dessas camadas isenta a pessoa da responsabilidade pelo que a mentira causa. Mas todas elas mostram por que pedir “só pare de mentir” raramente funciona. Não é uma questão de decisão. É um padrão que se formou ao longo do tempo e que, como tal, pede um processo para ser desfeito — não uma promessa.

Se você reconheceu esse padrão em alguém que você ama — ou reconheceu um pouco dele em você mesmo — vale a pena ir além da leitura. 

No canal Meu Adulto Saudável, no YouTube, tenho um vídeo sobre como conviver com uma pessoa que mente compulsivamente, intitulado: MITOMANIA - Quando Mentir Vira COMPULSÃO Com estratégias práticas de proteção para quem vive essa realidade no dia a dia. 

E se este artigo te ajudou a entender melhor esse tema, comente aqui embaixo: você já conviveu com alguém que mente sem necessidade? O que mais te intrigou nesse comportamento?

Abraços 

Denise R Nascimento 
Psicóloga 
CRP 04/16983

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